Na continuidade do tema da primeira semana do Mês da Neuropsicologia, sobre o Cérebro e as suas Funções Cognitivas, esta semana apresentamos as alterações do funcionamento cognitivo e suas consequências. Uma alteração cognitiva pode ser adquirida após uma lesão cerebral (Acidente Vascular Cerebral, Traumatismo cranio-encefálico, Epilepsia, etc.), mas também pode surgir ao longo do desenvolvimento sem coexistir qualquer lesão cerebral.
Esta semana destacamos uma das alterações cognitivas mais recorrentes nos dias de hoje: o Défice de Atenção.
A pergunta “Défice de Atenção – real ou virtual?” surge-nos a cada dia, pois cada vez mais é uma temática presente nas escolas ou no seio familiar. Frases como “o meu filho parece que não me ouve quando falo com ele” ou “tenho imensos alunos que não conseguem manter-se atentos e concentrados durante as tarefas escolares” ouvem-se diariamente na consulta de Neuropsicologia. Contudo, importa compreender se estamos realmente a falar da perturbação de défice de atenção ou de uma situação pontual de dificuldade de atenção associada a alterações emocionais.
Desta forma, é relevante referir que nem todas as alterações da atenção estão associadas à Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. O Défice de Atenção pode existir isoladamente como uma alteração cognitiva que acaba por comprometer, na maioria das vezes, a vida escolar das nossas crianças e adolescentes.
A pergunta “Défice de Atenção – real ou virtual?” levanta-se porque cada vez são mais as crianças que aparecem com este diagnóstico, mas será que se tornou moda ou realmente o Défice de Atenção está mais presente na nossa sociedade? De facto, surgem diariamente um maior número de crianças identificadas com este problema, contudo, este diagnóstico só pode ser feito após uma rigorosa Avaliação Neuropsicológica para compreendermos o funcionamento cognitivo na generalidade das suas funções e podermos confirmar ou não se existe alguma alteração do funcionamento cerebral que esteja, verdadeiramente, a comprometer o desenvolvimento cognitivo ou o desempenho escolar da criança ou adolescente.
Atendendo às dúvidas que surgem acerca deste tema, iremos apresentar uma das funções cognitivas mais importantes: A Atenção.
A Atenção está envolvida em quase todos os processos mentais e é fundamental para realizarmos tanto o nosso trabalho como para as nossas actividades de vida diária.
A atenção é uma função cognitiva bem complexa e diversos comportamentos resultam de um nível adequado de atenção para serem bem sucedidos, por exemplo: assistir a um filme e compreendê-lo; ler um livro; manter o foco de conversação num ambiente ruidoso. A atenção também é um pré-requisito fundamental para o processo de memorização e aprendizagem.
A Atenção não é um processo unitário, mas sim um sistema funcional complexo, dinâmico, multimodal e hierárquico que facilita o processamento da informação, seleccionando os estímulos pertinentes para realizar uma determinada actividade sensorial, cognitiva ou motora. O processo atencional consiste na focalização selectiva de um determinado estímulo, filtrando e inibindo as informações não desejadas. Por outro lado, a atenção encontra-se envolvida noutros múltiplos processos como o nível de consciência, orientação e motivação.
Na Neuropsicologia pode-se distinguir várias modalidades de atenção, destacando-se três: a atenção selectiva ou focalizada, a atenção mantida ou sustentada e a atenção dividida.
Atenção selectiva ou focalizada está relacionada com um tipo de atenção que nos permite atender a um estímulo em detrimento de outros, colocando em jogo duas operações fundamentais: a focalização atencional e a inibição atencional. Dificuldades neste tipo de atenção provocam distrações e incapacidade para tomar atenção aos estímulos pretendidos.
Atenção mantida ou sustentada é a capacidade de se manter a atenção deliberada num determinado aspecto ou tarefa durante um período de tempo alargado. Dificuldades causam incapacidade de manter a atenção em tarefas que exijam um esforço mental mantido.
Atenção Dividida capacita-nos para prestar atenção a mais de um estímulo em alternância, ou seja, partilhar e alternar a atenção selectiva entre duas tarefas ou estímulos. Por vezes, dificuldades graves podem originar uma incapacidade de realizar duas tarefas em simultâneo.
Para finalizarmos referimos que para desenvolver qualquer processo cognitivo é necessário que, previamente, se produza um certo grau de selecção entre os inúmeros estímulos que chegam ao sistema nervoso. Desta forma, a Atenção é o mecanismo que permite filtrar as informações mais pertinentes para o seu processamento posterior pelo sistema nervoso, sendo a base fundamental para realizar qualquer actividade mental. Por esta razão é que as alterações da atenção causam sempre transtornos cognitivos de maior ou menor intensidade.
Filipa Lourenço – Neuropsicóloga Pediátrica


