O Cérebro e as suas Funções Cognitivas

O interesse do ser humano em encontrar explicações sobre o comportamento e uma possível relação com o cérebro data desde a Antiguidade, época em que os gregos se tornaram os pioneiros na localização de lesões cerebrais em feridos de guerra.
O cérebro humano sempre despertou interesse nas mais diversas áreas científicas. Entretanto, foi apenas em 1891, a partir dos trabalhos de Ramón y Cajal (1889), que tomamos conhecimento da unidade básica do cérebro: o neurónio. Desde então, podemos observar um crescente acumular de conhecimento acerca da composição e funcionamento do cérebro, principalmente em questões relacionadas à localização das funções mentais.

Desde então, a trajetória das neurociências tem-se desenvolvido ao longo dos séculos, até à atualidade, em que o avanço da medicina, da ciência e da tecnologia possibilitam a investigação mais complexa da atividade cerebral e a sua correlação com o comportamento humano, e ainda assim há muito para se descobrir neste campo da ciência.
Todas as tarefas que diariamente realizamos necessitam da atividade cerebral. Desde ler um livro, apreciar uma obra de arte, memorizar uma notícia, dar um recado, reconhecer alguém e recordar o seu nome, calcular os gastos diários, conversar com uma pessoa, lembrar o caminho de casa, planear uma tarefa, tomar uma decisão, escolher a roupa que vestir, são apenas algumas de uma infinidade de funções que nosso cérebro faz no dia-a-dia.
Muito do que se sabe hoje sobre as diferenças funcionais entre o hemisfério esquerdo e direito deve-se aos estudos realizados com lesões cerebrais. Embora, inicialmente, se tenha prestado mais atenção ao hemisfério esquerdo como responsável pela actividade linguística, na actualidade o envolvimento das técnicas de neuroimagem funcional têm facilitado a identificação de outras assimetrias inter-hemisféricas.
De um modo geral, o hemisfério esquerdo, recebe a denominação de hemisfério verbal ou linguístico porque é dominante em todas as modalidades de linguagem oral e escrita. Utiliza estratégias analítico-sequenciais para o processamento da informação e executa-o de um modo dedutivo, abstracto e racional.
O hemisfério direito é considerado como o hemisfério espacial e não-verbal, porque é dominante nas actividades que requerem processamento visuo-espacial, como: leitura de mapas, orientação no espaço, identificação de caras e memória espacial. Utiliza um processamento caracterizado pelo estilo cognitivo intuitivo, imaginativo, sintético, concreto e criativo.
Para além da divisão hemisférica do cérebro, ainda podemos dividir o córtex cerebral em quatro grandes lobos cerebrais: temporal, parietal, occipital e frontal – cada um deles responsável por diversas funções.

O lobo temporal contem as áreas auditivas primárias, que são responsáveis pelo processamento sensorial dos estímulos auditivos procedentes do ouvido interno. Este lobo é reconhecido como o centro de armazenamento da informação – memória. Também está implicado no processamento da linguagem compreensiva e na regulação emocional proporcionando uma tonalidade afectiva a todas as informações, uma vez que estabelece estreitas relações com o sistema límbico.
É no lobo parietal que se proporciona a capacidade para identificar as sensações corporais. Também é responsável pela orientação espacial, tanto do próprio corpo como do reconhecimento à nossa volta, bem como da representação simbólica do nosso corpo – esquema corporal. O centro mais importante para a realização de operações numéricas – cálculo – é no parietal esquerdo.
A função básica do lobo occipital consiste no processamento da informação visual. As áreas visuais primárias identificam os parâmetros sensoriais correspondentes à cor, ao brilho e ao movimento das imagens visuais recebidas na retina. As áreas visuais secundárias integram unimodalmente as sensações visuais, transformando-as em percepções visuais.
O lobo frontal é o mais extenso e o de maior importância funcional na espécie humana, pois regula todas as funções cognitivas superiores. Divide-se em dois grandes territórios: o córtex motor responsável pelo controlo das actividades motoras voluntárias, incluindo a linguagem expressiva e a escrita; e o córtex pré-frontal que constitui a máxima expressão do desenvolvimento cerebral, sendo o responsável último da cognição, do comportamento e da actividade emocional. É neste córtex que se encontram as Funções Executivas (FE) que organizam o comportamento humano permitindo a resolução de problemas complexos. Faz parte das FE a capacidade para seleccionar, planificar, antecipar ou inibir a actividade mental; a capacidade para a monitorização de tarefas; a selecção, previsão e antecipação de objectivos; a flexibilidade dos processos cognitivos; a fluência verbal; a formação de conceitos abstractos e pensamento conceptual; a organização temporal do comportamento; e a consciência ética. A área pré-frontal é responsável pela Atenção selectiva e mantida, sendo fundamental nos processos de controlo voluntário da atenção; pela memória de trabalho que é uma modalidade de memória a curto-prazo que actua como um sistema de armazenamento temporal da informação permitindo-nos a aprendizagem de novas tarefas; pela linguagem expressiva; e pela flexibilidade mental que é a capacidade para adaptar as nossas respostas a novos estímulos, gerando novos padrões de comportamento.
Desta forma, destaca-se que as principais funções cognitivas são: a percepção, a atenção, a memória, a linguagem e as funções executivas. É a partir da relação entre todas estas funções que entendemos a grande maioria dos comportamentos, desde o mais simples até às situações de maior complexidade e que exigem actividades cerebrais mais elaboradas.
Filipa Lourenço
Neuropsicóloga Pediátrica