Ler e escrever são actividades naturais das sociedades consideradas civilizadas e aprender a fazê-lo na escola faz parte da vida normal de todas as crianças, sendo esperado que o façam do modo mais adequado possível. No entanto, existem crianças que apresentam algumas dificuldades em aprender a ler no tempo considerado adequado ou esperado, mesmo tendo uma inteligência normal, não apresentando défices sensoriais ou dificuldades físicas e tendo as condições de ensino aparentemente adequadas. Estas crianças apresentam uma dificuldade de aprendizagem específica ao nível da leitura, a dislexia.
A leitura é uma actividade complexa que envolve processos de descodificação de símbolos escritos e de compreensão do significado desses símbolos. Para aprender a ler é necessário que a criança consiga descodificar sequências de letras nos seus respectivos sons, sendo este processo, designado por processamento fonológico, fundamental para que a leitura ocorra de modo cada vez mais automático. No entanto, nos indivíduos disléxicos este processamento é realizado com maior dificuldade, o que interfere com a sua leitura e escrita.
A definição de dislexia é ainda um aspecto controverso, pois existem imensas nomenclaturas propostas e descrições das características destes indivíduos, o que torna difícil o seu diagnóstico. No entanto, é consensual que a dislexia tem uma base biológica, é causada por uma condição neurológica congénita e que os problemas associados a ela persistem ao longo da vida. Em relação ao segundo aspecto, hoje sabe-se que o cérebro dos indivíduos disléxicos não está lesado, apenas funciona de modo diferente, especialmente no hemisférico cerebral esquerdo (Cruz, 2007).
A dislexia do desenvolvimento é, então, uma dificuldade de aprendizagem caracterizada pela dificuldade na aquisição ou no uso da leitura e escrita de acordo com o que seria esperado para o nível intelectual da criança, que surge em crianças com inteligência normal, com instrução supostamente adequada e na ausência de problemas emocionais, sensoriais ou físicos subjacentes.
Em síntese, na dislexia podem surgir vários tipos de dificuldades de descodificação e de compreensão da leitura, como por exemplo na capacidade de compreender o significado das palavras, compreender palavras no contexto e seleccionar o significado que melhor se adapta e seleccionar e compreender ideias principais de um texto.
Para além das dificuldades ao nível da escrita e leitura, as crianças disléxicas podem igualmente apresentar problemas psicomotores, como uma lateralização mal definida, distorções ao nível perceptivo-espacial, défices no conhecimento do seu esquema corporal e na memória de curta duração e dificuldades na realização de exercícios manuais e de grafismos, tendo tendência para efectuar uma escrita em espelho e confundir algumas letras (Fonseca, 2008).
Hoje em dia já é possível identificar sinais precoces da existência de dificuldades de leitura e saber quais os sinais específicos a procurar em cada idade, sendo que os pais têm um papel fundamental neste aspecto. É importante que desde cedo os pais estejam atentos a esses sinais, que saibam o que devem procurar e que dediquem diariamente algum tempo para falar, escutar e ajudar os seus filhos. Segundo Shaywitz (2008), alguns dos indicadores de dislexia durante o ensino pré-escolar são, por exemplo, o atraso da linguagem falada, a falta de interesse por rimas, o uso persistente de “infantilismos” (dificuldade na articulação de palavras) e não aprender nomes de letras. Já no primeiro ano de escolaridade, os sinais de alerta são, por exemplo, não compreender que as palavras podem ser decompostas por sílabas, ter dificuldade em associar letras a sons e apresentar erros de leitura que nada têm a ver com os sons das letras, no entanto é uma criança que não apresenta quaisquer problemas ao nível do seu raciocínio, ou seja, é curiosa e criativa, compreende bem as histórias, resolve problemas, tem um vocabulário vasto e rico. Após o segundo ano de escolaridade, as crianças podem apresentar inúmeras dificuldades quer na linguagem falada, quer na leitura, havendo uma grande heterogeneidade entre elas.
Quando pais, educadores ou professores suspeitam que a criança poderá ter alguma dificuldade ao nível da leitura, não devem de todo adiar a sua avaliação, pois, tal como já foi referido, a dislexia persiste ao longo da vida e pode originar dificuldades em várias áreas, caso não seja diagnosticada e trabalhada no momento adequado.
Assim, quanto mais cedo a criança disléxica for avaliada e diagnosticada, maior é a probabilidade de se estabelecerem intervenções eficazes, diminuindo e esbatendo as suas dificuldades na leitura e, por sua vez, o impacto desta dificuldade na idade adulta.
Dra. Paula Santos
Técnica Superior de Reabilitação Psicomotora
Psicomotricista
Leitura Aconselhada
Capovilla, A. (2000). Problemas de Leitura e Escrita: como identificar, prevenir e remediar numa abordagem fónica. São Paulo: Memnom.
Cruz, V. (2007). Uma Abordagem Cognitiva da Leitura. Lisboa: Lidel Edições.
Fonseca, V. (2008). Dificuldades de Aprendizagem: Abordagem neuropsicológica e psicopedagógica ao insucesso escolar. 4ª Edição. Lisboa: Âncora Editora.
Shaywitz, S. (2008). Vencer a Dislexia: Como dar resposta às perturbações da leitura em qualquer fase da vida. Porto: Porto Editora.

