A Influência do Brincar no Desenvolvimento das Crianças

“Quando uma criança brinca, joga e finge, está a criar um outro mundo.
Mais rico e mais belo e muito mais repleto de possibilidades e invenções
do que o mundo onde, de facto, vive.”
Chaui (2000)
 
O desenvolvimento humano é um processo contínuo de evolução em vários domínios: físico, cognitivo, linguístico, social e emocional. A sequência desse desenvolvimento é previsível, no entanto, o tempo de aquisição de novas competências pode variar de criança para criança, dada a multiplicidade de factores que lhe estão associados.
Tão fundamental como uma alimentação cuidada e variada para o crescimento harmonioso e saudável da criança, também o brincar é relevante para que a criança atinja um padrão de desenvolvimento equilibrado. Quando brinca, a criança coloca nos brinquedos e na acção tudo aquilo que sente e imagina, fazendo com que o jogo seja visto como um importante meio de integração e desenvolvimento dos aspectos motores, cognitivos, afectivos, sociais e linguísticos. Na verdade, é em grande parte com as brincadeiras que os mais novos aprendem a apropriar-se da realidade exterior ao seu mundo, a significar os outros e as coisas e a aperceber-se das funções e das regras da vida.
No entanto, se até há relativamente pouco tempo, o brincar era desvalorizado e menosprezado, sendo visto e utilizado como uma forma de “ocupar o tempo”, com o evoluir dos tempos verificou-se uma mudança na forma de percepcionar o brincar e da sua importância no processo de desenvolvimento da criança. Actualmente existe uma maior preocupação com a educação das crianças, sendo que pais e educadores são hoje detentores da relevância da brincadeira no processo de desenvolvimento equilibrado das crianças.
Assim, tal como o desenvolvimento das crianças, também a actividade lúdica passa por diferentes etapas durante a primeira infância. As crianças começam por passar muito tempo a explorar e a descobrir, sendo que essas experiências sensório-motoras evoluem desde a manipulação de objectos, para a exploração e construção utilizando esses objectos, para a fantasia e imaginação e, finalmente, para brincadeiras em grupo e jogos de cooperação (Batista, 2009).  
Para além dos benefícios anteriormente referidos, a actividade lúdica permite o desenvolvimento de características tão importantes como a curiosidade, a auto-estima e a autonomia pessoal e social. Através das suas brincadeiras, sozinha ou acompanhada, a criança aprende igualmente a conviver em grupo e a lidar com problemas e emoções negativas, apurando a concentração e atenção sobre tudo o que se está a passar à sua volta. Para além disso, nas suas brincadeiras, a criança tem contacto com outras pessoas, o que promove também a construção de relações interpessoais e a aquisição de competências sociais, onde pratica, por exemplo, a imitação de comportamentos adultos.
Neste sentido, os jogos lúdicos potenciam também nas crianças em idades pré-escolar a aquisição de competências essenciais para as primeiras aprendizagens escolares, como a linguagem, coordenação óculo-motora, equilíbrio e consciência corporal, estruturação espácio-temporal, motricidade fina e global, memória, atenção e concentração, entre outras coisas, contribuindo, assim, para um maior sucesso escolar. Verifica-se que o brincar permite à criança evoluir a nível psicomotor, pois as actividades lúdicas têm a capacidade de alterar a organização do cérebro da criança, devendo estas ser aproveitadas ao máximo uma vez que este é um período crítico do desenvolvimento, devido à plasticidade neuronal existente nos primeiros anos de vida.
O ambiente familiar desempenha também um papel fundamental para o desenvolvimento global da criança, pois é o primeiro meio de socialização e educação que esta possui. É neste ambiente que a criança desperta para a vida como pessoa, onde interioriza valores, atitudes e papéis e onde desenvolve, de forma espontânea, a transmissão de conhecimentos e de cultura. É, então, importante que o adulto brinque e participe nos jogos com a criança, devendo fazê-lo, não somente de um ponto de vista pedagógico, mas como uma actividade natural.
Assim, quando a criança, por algum motivo, necessita de um acompanhamento pedagógico-terapêutico, o brincar deve ser uma estratégia de avaliação e de intervenção à qual se deve recorrer de modo a manter o seu interesse e motivação. Cabe, pois, ao técnico que a acompanha organizar o contexto para permitir as diferentes formas de jogos e seleccionar os materiais mais adequados e seguros, transformando, assim, este processo num espaço de prazer.
A actividade lúdica é, então, uma actividade natural e imprescindível ao ser humano, em que cada criança aprende o que mais ninguém lhe pode ensinar. Compete assim, mais uma vez, ao adulto encontrar estratégias que permitam conciliar o pouco tempo e espaço de que dispõe para estar com as crianças, pois só assim é possível que elas cresçam felizes e mais preparadas para enfrentar o ritmo de vida actual, tornando-se, no futuro, adultos responsáveis e autónomos.

Dr.ª Paula Santos
Técnica Superior de Reabilitação Psicomotora